A Intuição na visão junguiana e no conto de Vasalisa

A Intuição é um fenômeno que nos acontece, é um acontecimento vinculado aos nossos padrões de abordagem da realidade. Ela é um fato da psique humana e pronto, isso mesmo, só é!

Por isso começamos a Jornada de Vasalisa com um vídeo te chamando a perceber a Intuição!

A Intuição não espera por você, ela sempre está ali, e é você que a deve perceber. Se estiver distraída ou mergulhada mecanicamente nas atividades do dia-a-dia, você não vai poder colher a sutileza de sua mensagem. Se estiver trancafiada na lógica, cheia de porquês e tentando entender que tudo precisa ser explicado, vai desprezar o sutil saber que Intuição inesperada traz.

Intuição vem do latim, intueri, que significa olhar, ver.

É o ato de ver, de perceber clara e imediatamente uma verdade sobre alguma coisa, sem interrupção do raciocínio. Uma percepção, uma sensação, um sentimento, um conhecimento.  Existem inúmera formas para se ver, não se atenha somente ao captar as informações pelos olhos, saiba que todos os seus sentidos vêem, sim eles captam informação para criar uma realidade!

Considerada o sexto sentido por muitos, é um atributo ou função inerente a todos os indivíduos. Embora seja uma atribuição mais feminina (ânima) do que masculina (animus), ambos os sexos a tem igualmente. Não é um dom místico, todos nós somos capazes de tê-la e desenvolvê-la cada vez mais.

Podemos mergulhar em diversas áreas que estudam a Intuição para compreender esse mecanismo inato, mas já te adianto a intuição é mergulhar na vida e para cada pessoa se apresenta de uma forma diferente.

Segundo a dialética platônica, primeiramente temos a Intuição de uma ideia (Intuição primária) e num segundo momento, fazemos um esforço crítico para esclarecê-la (Intuição propriamente dita).

Segundo Descartes, existiriam três métodos: o pré-intuitivo, que tem o objetivo de alavancar a Intuição; o analítico que leva à Intuição e o intuitivo propriamente dito, método primordial da filosofia.

Para filosofia podemos defini-la como um meio de se chegar ao conhecimento, que se contrapõe ao conhecimento discursivo. Consiste num ato do espírito, que prontamente, se lança sobre o objeto, o apreende, o fixa, o determina. Vale tanto quanto uma visão, uma contemplação. Existem em várias formas: sensível, imediata ou direta; espiritual, visão do espírito; intelectual, uso das faculdades mentais; emotiva ou emocional e a volitiva ou da vontade.

Já para a psicologia, o conhecimento se dá através de três perspectivas: a intuitiva, que usa o senso comum e o pensamento intuitivo para chegar à resposta mais certa; a dedutiva, que usa a especulação lógica e filosófica para encontrar uma resposta mais razoável e a indutiva, que usa métodos científicos para reunir fatos novos para dar a resposta mais provável.  Duas questões acompanham as discussões sobre a Intuição: 1. A necessidade de experiência ou conhecimento acumulado sobre determinado assunto ou objeto, que permitiria um melhor acesso à Intuição ; 2. Apenas um relaxamento, uma percepção apurada, uma manifestação espontânea daria acesso a conteúdos intuitivos.

Do ponto de vista fisiológico, ela ocorre no córtex pré-frontal, uma das estruturas cerebrais que demora mais a amadurecer. Isto pode explicar porque os indivíduos mais jovens tomam decisões sem pensar, sem intuir. Como nos sonhos, capta de forma simbólica, flashes ou fragmentos da realidade. Os seus símbolos devem ser interpretados e organizados numa forma ou visão coerente.

A interpretação dos sonhos já foi apontada como uma das técnicas que propicia o desenvolvimento da Intuição .

E aí chegamos em Carl G. Jung, fundador da Psicologia Analítica, que nos traz a Intuição como uma utilização a psique para discernir sobre fatos e pessoas.

A base da Clarissa Pinkola Estés para a fundamentação no livro é da psicologia junguiana, ela não transita entre outras análises (o que é muito bom pra gente rs).

Na visão de Jung a instinto não vive sem a intuição e vice versa.

Jung elaborou as funções psíquicas das quais se originam os tipos psicológicos com base em quatro funções: duas de caráter racional – Pensamento e Sentimento – e duas de natureza irracional – Sensação e Intuição . Racional aqui indica o que está vinculado a um julgamento e visa alcançar metas estabelecidas. É irracional o que simplesmente acontece por ser inato ao ser humano.

A Sensação é a função da percepção, isto é, da relação com o mundo externo através dos cinco sentidos. Graças à sensação sabemos que no ambiente à nossa volta tem isto ou aquilo, está acontecendo tal fato ou aquele evento.

Esta função é irracional porque não necessita de nenhum raciocínio, aliás, é preciso suspender o exame crítico e todo julgamento permanecendo-nos receptivas às sensações: é necessário entregar-se à elas.
Uma vez percebido o mundo através da sensação, entra em cena o Pensamento que julga o fato ou a coisa seguindo um procedimento lógico (e é aqui que Clarissa vem quebrar paradigmas conosco nesse capítulo atrelando o nosso comportamento ao dos lobos).

As pessoas buscam a objetividade em tudo, são vinculadas ao que é “justo”, “ético” e “correto”. Tendem a ser rígidas e assim se distanciam cada vez mais da sua pulsação, do que lhe sua Mulher Selvagem.
Uma vez que o que foi percebido se une as relações de julgamento (e programações que temos) o que intervém para trazer o prazer de viver é uma terceira função que tem a visão geral do desenvolvimento de tais relações.

Esta função é a Intuição que podemos caracterizar como um perceber possibilidades intrínsecas de tudo que vai se manifestar,  porque não se expressa por meio de julgamentos, ela nos chega de repente.

Ufa teoria pra cabeção né! Bora para o livro!

Usando termos do livro para entender a abordagem junguiana do sentimento e sensação dessa visão (o que aborda esse capítulo): para agirmos com a integralidade do que somos (a mulher selvagem) precisamos processar informações sem rédeas constritivas ou punitivas (o Barba Azul), porém nem tudo está consciente porque viver é um grande aprendizado e por isso exercer esse viver anda de mão dada com a intuição (agora entendem porque Vasalisa vem depois do Barba Azul na estrutura do livro?)

Para Jung a intuição é a forma que processamos as informações de modo atemporal (hoje podemos falar do termo salto quântico até pra explicar isso), quando estamos no presente podemos acessar o passado e o futuro tornando as informações captadas mais conscientes e agindo moldando o tempo e espaço para onde queremos, e tudo isso é interpretado dentro de nós pelos sentidos sensoriais.

As informações captadas vão percorrer diversas partes de nossos 3 cérebros (reptiliano, límbico e neocortex) criando a realidade (tornando consciente) de acordo com a verdade de cada pessoa (aqui daria horas de conversa de como a informação é processada e se torna nossa verdade, se quiser tomamos um café!).

Porém o conto de Vasalisa não mergulha em entregar tudo isso sobre a Intuição ele simplesmente ensina que existe a intuição, é básico assim, abordando que é algo inato e precisamos acolher (a morte da mãe boa demais), também herdado da experiência de nossos ancestrais (a benção), que também pode ser aprimorada (tarefas de Baba Yaga), enfrentar os próprios medos e quebrar paradigmas com a verdade de sua alma (enfrentar a Megera e a madastra).  O conto explica a pulsação e te direciona a buscar a sua forma conectiva com ela (sair para a floresta e alimentar a boneca, conversar com ela) para agir e confiar em si mesma (dormir enquanto a boneca faz as tarefas) e moldar seu próprio caminho (o retorno pra casa) com todo o seu poder de ver o mundo (a caveira).

Não adianta de nada fazer as tarefas de Vasalisa sem antes percorrer o caminho da floresta, sem antes acolher a benção, sem antes sair da zona de acolhimento total da mãe boa demais.  É preciso mergulhar nas sensações que o mundo tem a nos oferecer.

 

Então vai lá e coloca o pé na grama, tome banho como se fosse a primeira vez, converse com as pessoas estando presente de corpo e alma com elas, feche seus olhos e respire junto com você!

Tamaris Fontanella